sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Volver

Ando escrevendo pouco. Minha pátria é minha lingua, e réu confesso, sou patricida. Neguei minha pátria, cambiei-me ao espanhol, li Cervantes para descobrir outros mares. Falar portunhol não bastava, precisava dos pronomes mais complexos de Madrid, da Zeta com som de Th, da linha de pensamento. Me tocava cambiar. Fui-me sem saber para onde, e depois descobri que era para longe do Rio, do português da exquina. Fui-me para o meio de um furacão. Aos que falavam que era simples, não não era. Não era simples expressar sentimentos em linguas parecidas mas diferentes, te deixa embaraçado em certas situações, oops, não! embarazado é grávido!
Daí descobri novas palavras, e essas me trouxeram a mente um português diferente, um pouco menos coloquial e clássico, ou pouco menos atrapado aos morros cariocas. Soa bem, atrapado, não? E então vi de verdade, não foi fácil, mas também foi rico, muy rico. Rever palavras que meu bisavô devia usar no dia-a-dia e que me surgiam quando eu tentava falar difícil mesmo sem saber daonde vinham. E veio tudo, enxurada. Surgiu o doble LL, desapareceu o Ç.
E então voltei. Sai do inverno madrilenho, cinza e ventoso para llegar no Rio aberto y caliente. Estranhei de início, como quem volta para não sabe onde, mas que sabe que volta. Até que estava andando de bicicleta pela Francisco Otaviano indo para Ipanema e vi o Vidigal, claro claro claro pelo Sol de verão. E percebi que voltei como quem ha mudado, como quem ha crescido, mas, mesmo assim, ainda sente a tal da saudade, e por isso voltei.

1 comentários:

Anônimo disse...

Lindo!